Bolsonaro e presidente argentino se desentendem em reuni√£o do Mercosul

Brasil e Argentina se enfrentaram nesta quinta-feira (8) a respeito da redução da TEC (Tarifa Externa Comum) e da flexibilização de regras comerciais do Mercosul.

Por Paulo Pereira em 08/07/2021 às 22:13:51
O Brasil assume agora a presidência pro-tempore do bloco. Nos últimos seis meses o cargo estava com a Argentina. (Foto: Reprodução)

O Brasil assume agora a presidência pro-tempore do bloco. Nos últimos seis meses o cargo estava com a Argentina. (Foto: Reprodução)

Em uma reunião virtual marcada pela fricção entre as partes e uma transmissão fragmentada, Brasil e Argentina se enfrentaram nesta quinta-feira (8) e deixaram claras suas diferenças a respeito da redução da TEC (Tarifa Externa Comum) e da flexibilização de regras comerciais do Mercosul.

Brasil e Uruguai defendem uma redu√ß√£o radical da tarifa, enquanto a Argentina prefere uma redu√ß√£o gradual e menor, evitando aplic√°-la ao setor industrial, pelo menos até janeiro. O Brasil insiste que o bloco deixe de ser guiado por "quest√Ķes ideológicas".

A Argentina também se op√Ķe à proposta lan√ßada pelo Uruguai, e que conta com apoio dos demais pa√≠ses, de que os membros do Mercosul sejam liberados para negociar tratados comerciais de forma independente. Outro ponto de atrito entre os participantes é a necessidade de que qualquer altera√ß√£o no acordo seja feito por consenso.

O Brasil assume agora a presid√™ncia pro-tempore do bloco. Nos √ļltimos seis meses o cargo estava com a Argentina.

Em seu discurso, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, afirmou que no mandato argentino "n√£o se avan√ßou na moderniza√ß√£o" do Mercosul, e que n√£o seria poss√≠vel deixar que o bloco "continue sendo sinônimo de inefici√™ncia".

"Precisamos superar essa imagem negativa", afirmou. Também defendeu a elimina√ß√£o de tarifas.

"Queremos e conseguiremos uma economia mais integrada ao mundo. N√£o podemos patinar na consecu√ß√£o desses objetivos, precisamos dar entregas à popula√ß√£o, eliminar entraves e entregar produtos mais baratos", afirmou.

Para o mandat√°rio brasileiro, a persist√™ncia de impasses e a necessidade de consenso para mudan√ßas nas regras do Mercosul s√£o um problema, especialmente quando pa√≠ses associados t√™m o que chamou de "vis√Ķes arcaicas" sobre a natureza do bloco e sobre o protecionismo — um claro recado para a posi√ß√£o argentina a respeito das propostas.

"Isso alimenta sentimentos de ceticismo no mercado internacional", disse.

Ele criticou mais uma vez a argentina, dizendo que "o semestre que se encerrou n√£o apresentou resultados concretos".

Bolsonaro ainda cometeu uma gafe no in√≠cio de sua fala. Ao referir-se à "presid√™ncia brasileira" do bloco, disse "pandemia brasileira".

O encontro virtual teve como anfitriã a Argentina. O presidente do país, Alberto Fernández, abriu o encontro com uma transmissão a partir da Casa Rosada lembrando os 30 anos do bloco, celebrados neste ano, e evocando as suas "regras fundacionais".

"S√£o regras, e abandonar o consenso entre os pa√≠ses para negociar por fora significa descumprir as regras", disse. Ele se referia à decis√£o manifestada pelo governo uruguaio, nesta quarta-feira (8), de buscar acordos fora do Mercosul, embora sem abandonar o bloco.

"A globaliza√ß√£o em que acreditamos é uma globaliza√ß√£o mais regionalizada, que fortale√ßa as cadeias regionais de produ√ß√£o, e queremos mais cadeias regionais, e n√£o menos", disse o argentino.

Fernández olhava para baixo, com expressão de irritação e cansaço.

Ele reiterou que a redu√ß√£o da TEC tem de partir de um consenso. "Esse é o DNA do bloco, n√£o podemos esquecer essa lei fundacional principalmente num contexto global de incertezas".

Com rela√ß√£o a flexibiliza√ß√Ķes, foi bastante enf√°tico: "A lei do Mercosul afirma que negocia√ß√Ķes devem iniciar-se e concluir-se em matéria conjunta. Nós seguiremos apoiados nessa lei".

E terminou afirmando: "Ninguém se salva sozinho".

O presidente uruguaio, Luis Lacalle Pou, afirmou que n√£o pretende descumprir as regras do bloco, como insinuou Fern√°ndez. "Vamos respeitar o ordenamento jur√≠dico vigente, mas este n√£o nos impede de avan√ßar em negocia√ß√Ķes também com outros pa√≠ses", disse.

"O mundo vai r√°pido e temos pressa. Espero que possamos ir todos juntos".

Ele afirmou que a ideia de consenso da funda√ß√£o do Mercosul pode e deve ser modernizada, de comum acordo, porque o contexto é outro e n√£o h√° porque manter a leitura da regra como ela foi escrita h√° tr√™s décadas.

Lacalle Pou também disse que n√£o discordava de Fern√°ndez quanto ao objetivo, que o Mercosul criasse mais ofertas de emprego. "Nós também queremos, mas talvez tenhamos estratégias diversas", afirmou, acrescentando que o Uruguai tem uma "voca√ß√£o de abertura".

Novamente, como havia feito no encontro comemorativo dos 30 anos, afirmou que a lentidão com a qual se avança com o acordo do Mercosul com a União Europeia "gera ceticismo e desconfiança".

Também apontou para o problema de manter as fronteiras entre os pa√≠ses fechadas por muito tempo, devido à pandemia. "Temos que pensar em como abrir e em transformar o tr√Ęnsito livre em oportunidades".

Em sua fala, o presidente do Paraguai, Mario Abdo Ben√≠tez, afirmou que v√™ o Mercosul "integrado por quatro membros, n√£o tr√™s ou dois". E também mostrou preocupa√ß√£o de que a c√ļpula termine com imagem de retrocesso. "Precisamos fazer o poss√≠vel para evit√°-lo".

Abdo propôs um encontro presencial mais urgente para resolver as diferen√ßas. "As reuni√Ķes virtuais foram um mecanismo necess√°rio, mas sinto que para avan√ßar na nossa discuss√£o ser√° necess√°rio um encontro presencial, com um abra√ßo fraterno entre todos", disse.

Em sua fala, Bolsonaro também afirmou que deseja que a próxima reuni√£o, no fim do ano, se realize de modo presencial, no Brasil.

Abdo ainda fez uma reclamação ao mecanismo Covax, porque estes não estariam cumprindo com o acordado com o Paraguai. "Precisamos de um maior volume de vacinas, de modo mais rápido", afirmou.

O Paraguai enfrenta uma curva acentuada de alta de casos de coronav√≠rus. O mandat√°rio agradeceu as doa√ß√Ķes dos governos do Chile e da Argentina, e também a Bolsonaro pelo envio de oxig√™nio medicinal.

Os países optaram por não mostrar uma transmissão conjunta da reunião -cada governo divulgou por meio de seus canais oficiais apenas a fala de seu mandatário, sinalizando a crise que afeta o bloco.

O Paraguai optou por n√£o divulgar a interven√ß√£o de Abdo em sua totalidade. A assessoria de imprensa da Presid√™ncia do pa√≠s enviou à imprensa comunicado sobre a participa√ß√£o do pa√≠s.

J√° o Uruguai tentou transmitir a fala de seu presidente, mas por problemas de conex√£o apresentou apenas a imagem de Luis Lacalle Pou, sem seu √°udio. A quest√£o foi resolvida posteriormente.

No final de sua fala, Bolsonaro ainda cutucou a Argentina a respeito da final da Copa América, quando o pa√≠s encara o Brasil.

"Queria dizer que a √ļnica rivalidade entre Brasil e Argentina nós vamos ver no próximo s√°bado no Maracan√£. E vou adiantar o resultado, vai ser 5 a 0", disse.

Fonte: Da redação com Folhapress

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