O ex-capit√£o e o antiministro

Por Prof. Heitor Scalambrini Costa em 29/05/2021 às 20:33:05
Heitor Scalambrini Costa Professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco

Heitor Scalambrini Costa Professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco

Vivemos tempos sombrios.

A m√ļsica da artista Vanessa da Mata, "Absurdo", retrata muito bem esta situa√ß√£o, quando em um dos versos diz "Falsos bens, progresso? Com a m√£e, ingratid√£o. Deram o galinheiro, pra raposa vigiar".

Lembrei do que disse o ex-capit√£o, de passagem pela presid√™ncia da Rep√ļblica, ao nomear o advogado (sic!) Ricardo Salles como antiministro do meio ambiente. Segundo relatado na reportagem da jornalista Julia Lindner, do Estado de S√£o Paulo (18|12|2018), Bolsonaro afirmou "Quando vi entidades ambientais, criticando Ricardo Salles falei acertamos".

Este coment√°rio provocativo representa o objetivo da nomea√ß√£o do ex-secret√°rio estadual do Meio Ambiente do governo de Geraldo Alckmim (afamado de pertencer à organiza√ß√£o religiosa ultraconservadora, Opus Dei). Indicar alguém que tem as mesmas opini√Ķes, e que far√° tudo o que o ex-capit√£o mandar, um estafeta. A decis√£o de emposs√°-lo n√£o levou em conta o curr√≠culo (uma verdadeira folha corrida) do indicado, com in√ļmeras falcatruas respondendo na justi√ßa, por den√ļncias de enriquecimento il√≠cito, e j√° condenado por improbidade administrativa.

Logo, a t√£o propalada propaganda de que o atual governo é incorrupt√≠vel, é conversa para enganar e iludir os tolos. Casos e den√ļncias se avolumam contra membros do desgoverno, e atinge o mais √≠ntimo c√≠rculo de ministros e assessores, chegando mesmo aos filhos do despresidente.

Mas voltando ao Salles, inimigo do meio ambiente, a den√ļncia atual encaminhada pela Embaixada Americana em Bras√≠lia, acabou resultando na Opera√ß√£o Akuanduba da Pol√≠cia Federal, ordenada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre Moraes, para investigar desvio de conduta de servidores p√ļblicos brasileiros no processo de exporta√ß√£o de madeira. Foram cumpridos v√°rios mandatos de busca e apreens√£o em endere√ßos ligados ao antiministro, e no próprio prédio do MMA; além do afastamento do presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov√°veis (IBAMA), Eduardo Bim, homem de confian√ßa, e suposto membro da quadrilha.

Pesa sobre o ministro estafeta, e funcion√°rios do IBAMA e do MMA, crimes contra a administra√ß√£o p√ļblica, como corrup√ß√£o, advocacia administrativa, prevarica√ß√£o e facilita√ß√£o de contrabando praticados por agentes p√ļblicos e empres√°rios do ramo madeireiro. Em outras palavras, o antiministro é acusado de liderar um esquema criminoso de facilita√ß√£o de contrabando de produtos florestais.

Para corroborar o qu√£o nocivo é o estafeta do despresidente, pesquisadores do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), fizeram um levantamento de suas a√ß√Ķes à frente do MMA. Um estudo chamado "Dando Nome Aos Bois" (https://congressoemfoco.uol.com.br/meio- ambiente/salles-boiada-levantamento-inesc/), realizou um detalhamento das medidas adotadas pela gest√£o Salles até o momento. Desde o in√≠cio do mandato do ex-capit√£o em 2019, ao menos 124 medidas foram adotadas pelo MMA podendo ter gerado algum tipo de risco às pol√≠ticas de prote√ß√£o ambiental no Brasil. Tal estudo classificou a exist√™ncia de pelo menos 7 medidas de risco médio, 38 de risco alto e 10 de risco muito alto com perda da capacidade de prote√ß√£o ambiental.

Foram identificadas também, de acordo com o estudo, 40 medidas de médio, alto e muito alto risco para enfraquecimento da estrutura do Instituto Chico Mendes de Conserva√ß√£o da Biodiversidade (ICMBIO), cujas principais fun√ß√Ķes s√£o: apresentar e editar normas e padr√Ķes de gest√£o de Unidades de Conserva√ß√£o federais; propor a cria√ß√£o, regulariza√ß√£o fundi√°ria e gest√£o das Unidades de Conserva√ß√£o federais; e apoiar a implementa√ß√£o do Sistema Nacional de Unidades de Conserva√ß√£o (SNUC).

Com a inten√ß√£o clara e declarada de acabar com o MMA, o despresidente colocou na pasta alguém que pudesse destru√≠-lo, de afrouxar e mesmo extinguir a legisla√ß√£o ambiental do pa√≠s. E o estafeta de Bolsonaro tem feito com afinco e dedica√ß√£o esta tarefa. Além, conforme den√ļncias, amealhar alguns milh√Ķes de reais para seu cofre pessoal.

Assim, mesmo com tudo que tem sido revelado sobre a atua√ß√£o deste que é, sem d√ļvida, o pior ministro do meio ambiente, seu chefe declarou nas suas redes sociais (20/5/2021) "Ricardo Salles, é excepcional". Semelhante posicionamento teve o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que publicou em seu twitter "Ricardo Salles é o melhor ministro do Meio Ambiente da história deste pa√≠s".

Est√° na hora dos membros do Ministério P√ļblico reagirem com firmeza contra tudo o que est√° acontecendo. Mesmo diante de afirma√ß√Ķes, declara√ß√Ķes e a√ß√Ķes, cada vez mais frequentes, de que a Procuradoria Geral da Rep√ļblica (PGR) est√° aparelhada por interesses nada republicanos.

Na pr√°tica a cadeira de ministro do Meio Ambiente est√° vaga. O antiministro n√£o tem mais condi√ß√Ķes pol√≠ticas, morais e ética de continuar à frente do MMA. O que se espera agora é uma a√ß√£o r√°pida dos órg√£os da Rep√ļblica de formalizar a vac√Ęncia.

E n√£o adianta trocar seis por meia d√ļzia, pois o ex-capit√£o continua. E com certeza encontrar√° um outro estafeta para obedecer suas ordens.

Fonte: Da Redação

Comunicar erro
radioweb

Coment√°rios

Anuncie Aqui