A amea√ßa nuclear, parte I: A ind√ļstria de cercas.

Essa √© uma s√©rie de tr√™s textos sobre o projeto do governo federal de instalar centrais nucleares no sert√£o do Nordeste, em uma regi√£o-territ√≥rio de v√°rios povos ind√≠genas e comunidades quilombolas. O projeto do governo federal prev√™ seis reatores nucleares a serem constru√≠dos nas margens do S√£o Francisco. Os povos est√£o atentos à amea√ßa do sert√£o nuclear e v√£o construindo suas redes de resist√™ncia para parar um projeto que pode violentar parte sens√≠vel do bioma caatinga e todos os seus seres.

Por João do Vale da Comissão Pastoral da Terra em 27/05/2021 às 22:49:17
Arte por 1Dinelli

Arte por 1Dinelli

Euclides da Cunha, militar e engenheiro nascido no Rio de Janeiro, é enviado ao sert√£o baiano pelo jornal O Estado de S√£o Paulo para cobrir a guerra contra um arraial de fan√°ticos, que n√£o respeitavam as autoridades oficiais do Estado. Esse arraial era a comunidade de Belo Monte, que ficou mais conhecida como Canudos. Euclides da Cunha chega em Canudos na metade de setembro de 1897, no fim da guerra, com a comunidade j√° praticamente destru√≠da pela viol√™ncia do Estado. Vai embora vinte dias depois, antes da guerra acabar. Chega tarde e vai cedo, passa menos de um m√™s no sert√£o. Com suas impress√Ķes publicou, cinco anos depois, "Os sert√Ķes", que ele chamou de um livro-den√ļncia e lhe rendeu uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. O sert√£o – no imagin√°rio nacional – passou a ser tudo aquilo que Euclides dizia.

Inicialmente a favor da guerra, Euclides da Cunha muda a sua avalia√ß√£o vendo os horrores do campo de batalha. Afirma que o massacre contra Canudos é um dos maiores crimes da história. Ao mesmo tempo, constrói uma imagem do sert√£o superficial e preconceituosa, como um lugar fatalmente condenado pelo clima, de gente primitiva, de vida quase invi√°vel. A figura de Antônio Conselheiro é desenhada como uma pessoa sombria, ignorante e com perturba√ß√Ķes mentais e os conselheiristas como uma massa de fan√°ticos alienados sem nenhum dom√≠nio psicológico sobre suas vidas e inimigos do progresso. Se de um lado a obra liter√°ria tem o mérito de n√£o deixar que o massacre contra Canudos fosse ocultado na história, de outro a sua tese é um desastre pol√≠tico, recheada de racismos e tem servido para enjaular em uma narrativa colonial a história do sert√£o.

Os sert√Ķes é uma fic√ß√£o, uma fic√ß√£o que Euclides nunca assumiu ser e que se propagou como n√£o sendo, como se um documento pol√≠tico fosse. Para entendermos o que se diz hoje sobre o sert√£o é só lembrar que um militar e engenheiro do Sudeste, profundamente influenciado por ideias iluministas, que passou no sert√£o menos de um m√™s durante uma guerra, é um dos principais respons√°veis pela narrativa mais aceita sobre essa parte do mundo.

Quatro séculos antes?

?esse território que veio a ser chamado de Brasil é escolhido pela geopol√≠tica mundial para ser um fornecedor de natureza. O sert√£o entra no jogo como colônia da colônia, é ocupado por uma necessidade da regi√£o canavieira de arrumar lugar para a cria√ß√£o de bois, essenciais a exist√™ncia dos engenhos. Inicia a morte da caatinga, o genoc√≠dio ind√≠gena, a privatiza√ß√£o das terras e também das √°guas. Muita resist√™ncia, muita guerra. Nesse momento o sert√£o é ferrado com as marcas coloniais que influenciaram – e em muitos casos determinariam – tua exist√™ncia até hoje. A pecu√°ria invade o sert√£o, no interior ela se estabelece e abastece a Zona da Mata, do Maranh√£o até a Bahia.

As fazendas se multiplicam como peste, irradiando da Bahia para norte e noroeste seguindo o caminho do Rio S√£o Francisco. De Pernambuco, também para norte e noroeste, e pelo litoral, adentrando o interior do Rio Grande do Norte e da Para√≠ba. Durante sete décadas uma série de guerras seriam um marco histórico da oposi√ß√£o dos povos origin√°rios à invas√£o colonial. Era a "Guerra dos B√°rbaros" ou "Confedera√ß√£o dos Tapuias". Diversas na√ß√Ķes ind√≠genas, muitas vezes articuladas entre si, promoveram no sert√£o uma das mais longas guerras de resist√™ncia anticolonial da história da América Latina.

Hoje?

?.o sert√£o é tido como um lugar que sangra sem cessar sob a navalha inclemente da seca. A estiagem – um fenômeno natural que acontece em v√°rios lugares do mundo – é usada para mascarar a fome voraz de terra, de √°gua e gente do capitalismo-colonialismo-modernidade. Foi fundamental ao processo de encobrimento do sert√£o a constru√ß√£o de uma narrativa em que o identifica como um lugar sem √°gua, de sofrimento quase ontológico. Digo: à natureza n√£o deve ser dado o peso da culpa. Atentem: o sert√£o n√£o pode ser explicado pela suposta aus√™ncia de √°gua que impossibilitaria a reprodu√ß√£o de vida, mas ao contr√°rio, pela sua presen√ßa, ou melhor, ou pior, pela disputa em torno da √°gua, por sua privatiza√ß√£o. O monopólio da √°gua, somado ao monopólio da terra e às demandas pol√≠tico-econômicas externas moldaram esse território.

O problema no sert√£o n√£o é a seca, mas as cercas, como disse um campon√™s em uma afirma√ß√£o que ficou famosa. O cercamento da √°gua, da terra e a implanta√ß√£o de um modelo de sociedade insuport√°vel para a natureza desse lugar tem sacrificado todos os tipos de vida e enriquecido os grupos de sempre. A seca n√£o é um fenômeno clim√°tico, mas um evento pol√≠tico catastrófico – é uma inven√ß√£o. Mas n√£o inven√ß√£o no sentido de algo que n√£o existe, de uma falsa verdade, mas seca como algo que n√£o existia e passou a existir, que foi criado, fabricado, inventado. Estruturas sociais profundamente injustas, moldadas por um processo absurdamente violento, justificadas por uma ideia de modernidade e superioridade, permitiram transformar um evento natural e completamente adapt√°vel que é a estiagem em uma cat√°strofe que é a seca.

N√£o existe seca para os ricos. O projeto colonial-capitalista-moderno inventou as cercas que inventou a seca que é a f√°brica da dor no sert√£o. Com a privatiza√ß√£o da √°gua pelos latifundi√°rios é restringida a autonomia camponesa e gerada m√£o de obra barata. A cada nova estiagem o Estado envia dinheiro e obras para os donos do poder locais e a estiagem – transformada no evento pol√≠tico seca – passa a ser um fenômeno desejado pela elites que v√™em nela – e no sofrimento do povo – o caminho de consolida√ß√£o de poder.

Muita coisa muda pra permanecer igual?

Esse fenômeno – batizado de ind√ļstria da seca – tem seus produtos regularmente atualizados. A transposi√ß√£o do Rio S√£o Francisco, por exemplo, foi um novo modelo. Porém, a mais nova vers√£o da ind√ļstria da seca j√° est√° sendo anunciada no mercado mundial, é a Central Nuclear do Nordeste. Um mega projeto de seis reatores nucleares para serem constru√≠dos às margens do Rio S√£o Francisco. O lugar exato é a cidade de Itacuruba, em Pernambuco. Na verdade a Nova Itacuruba, porque a antiga foi inundada para a constru√ß√£o da Usina Hidrelétrica de Itaparica. Além de centenas de pescadores e camponeses, l√° convivem tr√™s comunidades quilombolas: Negros de Gil√ļ, Ingazeira e Po√ßo dos Cavalos; e tr√™s povos ind√≠genas: Pankar√° Serrote dos Campos, Tux√° Campos e Tux√° Paje√ļ.

É aberta a possibilidade de mais um cap√≠tulo do genoc√≠dio colonial. Além do perigo de um acidente nuclear, que pode dizimar grande parte da popula√ß√£o do Nordeste em um só dia, existe a amea√ßa de uma nova expulsos dos povos que convivem com o território objeto das m√£os sempre manchadas de sangue do Estado.

A ind√ļstria da seca é vers√°til. Como um instrumento do capitalismo e uma das principais armas coloniais em seu genoc√≠dio cotidiano, ela adapta-se a cada movimenta√ß√£o do mercado ao mesmo tempo que contribuiu para o bem andar dessas adapta√ß√Ķes e para as possivelmente necess√°rias novas adapta√ß√Ķes. Ela é, ao mesmo tempo, produto e matéria-prima do capitalismo no sert√£o.

Para que um dia o mundo saiba?

O sert√£o do Nordeste é o semi√°rido mais chuvoso e com a maior quantidade de √°gua armazenada do planeta. Tem debaixo dos pés v√°rios aqu√≠feros de √°gua doce e sobre seu corpo caminham e se encontram numerosos rios. Esse tempo que escrevo é de inverno e chove muito, o verde da caatinga domina meus olhos. O milho crioulo aqui da ro√ßa j√° resistiu à lagarta e aponta que esse ano teremos fartura. A espera n√£o é pela √°gua – que sempre esteve aqui – mas pelo arrombar de todas as cercas.


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