Além da pandemia, há várias tragédias em curso no Brasil.

Por Valdeci Rodrigues em 14/05/2021 às 17:50:27

Devo iniciar esta coluna discordando do próprio t√≠tulo que dei a ela, n√£o creio que "tragédia" seja o adjetivo correto para caracterizar o que vivemos em nosso pa√≠s, que é um descaso planejado. Confesso, portanto, que coloquei este t√≠tulo porque é mais chamativo e atrairia a aten√ß√£o do leitor.

Em meio à maior crise sanit√°ria da nossa história, em que uma doen√ßa para a qual j√° existe vacina vitimou mais de 400 mil pessoas e continua a vitimar milhares todos os dias, é compreens√≠vel que os nossos esfor√ßos se concentrem em combater a prolifera√ß√£o da doen√ßa e diminuir o n√ļmero de mortos. O nosso governo, no entanto, n√£o combate a pandemia e tampouco aponta caminhos para a recupera√ß√£o depois que finalmente super√°-la. Pelo contr√°rio, temos um governo que prolonga a pandemia e retarda solu√ß√Ķes para recuperar o nosso pa√≠s.

Na educa√ß√£o, por exemplo, j√° tem pouco mais de um ano em que crian√ßas e adolescentes se encontram afastados da escola, muitos deles sem direito sequer às aulas virtuais. Além dos preju√≠zos para o aprendizado e forma√ß√£o das nossas próximas gera√ß√Ķes, o que pode nos colocar em um lugar ainda mais distante dos pa√≠ses desenvolvidos e nos empurrar para a fileira de tr√°s dos pa√≠ses em desenvolvimento, é o fechamento de uma janela de oportunidades que vem se abrindo nas √ļltimas décadas. S√£o milhares de crian√ßas e adolescentes que ter√£o o seu ensino defasado e um abismo que se torna ainda maior entre classes, pois houveram aqueles que t√™m acompanhamento desde o in√≠cio da pandemia e outros que passaram meses sem nenhum tipo de contato com o mundo da escola. O √ļltimo Enem j√° captou um pouco do impacto desastroso causado na educa√ß√£o, fenômeno que dever√° se repetir nos próximos anos.

No ensino superior n√£o é diferente, recentemente se tornou p√ļblico que as universidades federais, as mesmas que t√™m sido t√£o essenciais no desenvolvimento de vacinas e no atendimento em hospitais universit√°rios, est√£o operando com a mesma verba de 2004 com o dobro de alunos matriculados. Além de prejudicar os aux√≠lios de perman√™ncia estudantil, fundamentais para que alunos de classes mais baixas permane√ßam na universidade, o or√ßamento sucateado amea√ßa inviabilizar o funcionamento de v√°rias universidades e institutos federais j√° esse ano. A UFRJ, a maior universidade do pa√≠s, j√° publicou nota afirmando que, se esse cen√°rio n√£o se reverter, pode parar suas atividades em Julho. Como lidaremos com tantas perdas na educa√ß√£o e na ci√™ncia brasileira?

No combate à pobreza e à desigualdades, vivemos um retrocesso sem precedentes e que jogou fora todas as conquistas alcan√ßadas desde a redemocratiza√ß√£o. O Indicador de Preval√™ncia de Subalimenta√ß√£o feito pela FAO-ONU, indicou que a inseguran√ßa alimentar atingiu 59,4 % dos domic√≠lios brasileiros em Dezembro de 2020. Destes, 15% em situa√ß√£o de inseguran√ßa alimentar grave, ou seja, fome. Se pensarmos que de Dezembro para c√°, o aux√≠lio emergencial teve seu valor reduzido em mais da metade e o pre√ßo dos alimentos e do g√°s de cozinha continuaram subindo, o cen√°rio é ainda mais desolador. Além disso, est√£o sendo constatados efeitos reversos na ascens√£o social. Desde Agosto do ano passado, 32 milh√Ķes de pessoas deixaram a classe C e se integraram às classes D e E, segundo os critérios da FGV Social. Enquanto isso, a classe E cresceu em 24, 4 milh√Ķes de pessoas. Embora eu esteja aqui falando sobre n√ļmeros, cabe lembrar que estamos falando de pessoas, que t√™m suas vidas devastadas pela pandemia e pela aus√™ncia e destrui√ß√£o de pol√≠ticas p√ļblicas pelo governo Bolsonaro.

Esses dois cen√°rios retratados até agora, apontam para um futuro com trabalhadores menos qualificados, uma desigualdade abissal e pessoas com menos renda para consumir e investir. Combinados, s√£o a receita perfeita para a devasta√ß√£o econômica, pois faltar√£o trabalhadores que se encaixem numa produ√ß√£o que exige cada mais qualifica√ß√£o e haver√° queda no consumo das fam√≠lias, que é respons√°vel por boa parte do PIB brasileiro. Qual empresa ou investidor apostar√° em um pa√≠s nessa situa√ß√£o? Confian√ßa n√£o enche barriga nem faz a economia crescer, é necess√°rio que o Estado assuma responsabilidade e tome a frente da retomada econômica, com planejamento e investimento em educa√ß√£o, medidas de seguridade social e combate à fome e à pobreza e est√≠mulo à melhoria da infraestrutura do pa√≠s, ampliando a oferta de emprego. Em vez disso, Guedes e sua doutrina neoliberal anti-pobre, aponta cada vez mais para redu√ß√£o de gastos e investimentos, apostando que atrairemos investimentos apenas por simpatia de empresas e investidores. Isso sem falar no fato de que nos tornamos p√°rias mundiais por conta de nossas pol√≠ticas ambientais. Com esse governo, n√£o h√° sa√≠da. Além do coronav√≠rus, a sociedade brasileira tem que lidar com outro inimigo t√£o mortal quanto: o governo Bolsonaro.

Se, chegando até aqui voc√™ discorda de tudo que escrevi, se pergunte: Em mais de 3 anos de governo, qual projeto o governo Bolsonaro apresentou para melhorar a educa√ß√£o, sa√ļde, seguridade social, economia ou qualquer outra √°rea?

A resposta talvez te assuste.

Fonte: Da Redação Assessória

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