Bolsonaro foi preponderante para termos 100 mil mortes por Covid, diz Mandetta

Para Mandetta, o alto n√ļmero de pessoas na economia informal e a press√£o causada pelas elei√ß√Ķes municipais tamb√©m pesaram para uma ades√£o menor ao isolamento.

Por Paulo Pereira em 08/08/2020 às 19:48:30
Para Mandetta, o país tem seguido previsões iniciais feitas pela pasta, que apontavam "semanas duras" até o fim de agosto, com chance de queda nos meses seguintes. (Foto: Reprodução)

Para Mandetta, o país tem seguido previsões iniciais feitas pela pasta, que apontavam "semanas duras" até o fim de agosto, com chance de queda nos meses seguintes. (Foto: Reprodução)

A postura do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), contr√°ria a medidas inicialmente indicadas pelo Ministério da Sa√ļde, e as interfer√™ncias feitas por ele na pasta foram fatores que levaram o pa√≠s a tirar de foco o distanciamento social e chegar a cerca de 100 mil mortes pela Covid-19. A avalia√ß√£o é do ex-ministro da Sa√ļde Luiz Henrique Mandetta, que deixou o cargo em abril.

"Houve uma série de fatores, mas o fator presidente foi preponderante. Ele deu argumento para as pessoas n√£o ficarem em casa. Ele deu esse exemplo e serviu de passaporte para as pessoas aderirem politicamente a essa ideia", afirma.

Para Mandetta, o alto n√ļmero de pessoas na economia informal e a press√£o causada pelas elei√ß√Ķes municipais também pesaram para uma ades√£o menor ao isolamento.

"[Prefeitos] veem a popularidade diminuir, e como tem um contraponto político feito pelo presidente, ficam pressionados."

Na vis√£o do ex-ministro, o governo também "abriu m√£o da ci√™ncia" e das a√ß√Ķes para controle e "ficou em um debate menor, que é a cloroquina".

"Foi uma somatória de fatores, mas principalmente liderados pela posi√ß√£o do governo, que trocou dois ministros e botou um terceiro que fez uma ocupa√ß√£o militar sem técnicos na Sa√ļde."

Mandetta, que estava à frente do ministério no in√≠cio da estrutura√ß√£o de medidas contra a Covid-19, afirma ter alertado o Planalto sobre proje√ß√Ķes que superavam inclusive o n√ļmero atual de óbitos.

"O [ex-secret√°rio-executivo Jo√£o] Gabbardo falava em 30 a 40 mil [mortes], o Wanderson [Oliveira, ex-secret√°rio de Vigil√Ęncia] de 70 a 80 mil e eu falava que era acima de 100 mil mortos, porque eu contava as por coronav√≠rus e as por colapso caso n√£o se organizasse um sistema de sa√ļde mais robusto. Apresentei todos esses cen√°rios", afirma ele. "Mas a impress√£o que tenho é que literalmente n√£o quiseram ouvir a gravidade do problema."

À Folha de S.Paulo, no in√≠cio de julho, Wanderson Oliveira afirmou que a pasta j√° tinha alertado o governo após um estudo feito com a Opas (Organiza√ß√£o Pan-americana de Sa√ļde) sobre a possibilidade de o pa√≠s chegar a 100 mil mortes.

Questionado sobre medidas para evitar esse cen√°rio, Mandetta diz que a estratégia inicial da pasta previa investir no monitoramento de pacientes por meio da aten√ß√£o b√°sica e de telemedicina, além de ampliar a oferta de testes e respiradores em UTIs. Em rela√ß√£o à atual gest√£o da pasta, o ex-ministro diz n√£o ter visto gest√£o.

"Vi uma ocupa√ß√£o militar e uma tentativa de n√£o mais fornecer n√ļmeros, o que foi o cart√£o de visitas deles. Vi fazerem um protocolo de medicamento absurdo. E vi essa sequ√™ncia de contamina√ß√£o [pela Covid], até do próprio presidente", afirma, sobre o diagnóstico recebido por Bolsonaro em julho.

"Às vezes [com a doen√ßa] a pessoa reflete, muda a vis√£o, mas ele continuou com a vis√£o de que o problema é da economia, e caindo de quatro a cinco Boeings todo dia no Brasil", diz, se referindo à média de mais de mil mortes di√°rias por Covid-19 no pa√≠s.

Para Mandetta, o pa√≠s tem seguido previs√Ķes iniciais feitas pela pasta, que apontavam "semanas duras" até o fim de agosto, com chance de queda nos meses seguintes. Ele atribui o cen√°rio, no entanto, à falta de uma ades√£o maior a medidas como o distanciamento social.

O cen√°rio poderia ser pior, afirma, caso o pa√≠s tivesse seguido recomenda√ß√Ķes do presidente, que previa que estados n√£o adeririam a pol√≠ticas de distanciamento social.
Atualmente, Mandetta finaliza livro que narra sua jornada no Ministério da Sa√ļde desde o dia em que a China reconheceu o novo coronav√≠rus até sua sa√≠da do cargo.

Fonte: Da redação com Folhapress

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