Dinheiro de ex-assessores de Flávio Bolsonaro duplicou créditos na conta de Queiroz

A suspeita é de que o ex-assessor recolhia parte do salário de alguns assessores para repassá-los ao filho do presidente Bolsonaro.

Por Paulo Pereira em 26/07/2020 às 08:07:05
As informações disponíveis indicam que os 13 assessores suspeitos de devolverem parte do salário para Queiroz repassaram, no total, R$ 303 mil ao PM. (Foto: Reprodução)

As informações disponíveis indicam que os 13 assessores suspeitos de devolverem parte do salário para Queiroz repassaram, no total, R$ 303 mil ao PM. (Foto: Reprodução)

Dados da quebra de sigilo banc√°rio de ex-assessores do senador Fl√°vio Bolsonaro (Republicanos-RJ) mostram que o dinheiro repassado por eles ao policial militar aposentado Fabr√≠cio Queiroz duplicou os créditos feitos na sua conta corrente em 2016.

As informa√ß√Ķes dispon√≠veis indicam que os 13 assessores suspeitos de devolverem parte do sal√°rio para Queiroz repassaram, no total, R$ 303 mil ao PM. O valor é metade dos R$ 605,5 mil recebidos pela conta do policial militar aposentado entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017.

Amigo do presidente Jair Bolsonaro, Queiroz é apontado pelo MP-RJ como o operador financeiro do esquema da "rachadinha" no antigo gabinete de Fl√°vio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde ele exerceu o mandato de deputado estadual de fevereiro de 2003 a janeiro de 2019.

A suspeita é de que o ex-assessor recolhia parte do sal√°rio de alguns assessores para repass√°-los ao filho do presidente Bolsonaro.

Preso preventivamente no mês passado em Atibaia, no interior de São Paulo, Queiroz cumpre a medida cautelar em casa, benefício concedido pelo presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), João Otávio de Noronha.

A defesa do senador nega as acusa√ß√Ķes de que praticou "rachadinha". A de Queiroz afirma que n√£o comenta casos sob sigilo.

Foi a movimenta√ß√£o financeira de 2016 na conta de Queiroz que gerou a investiga√ß√£o do Ministério P√ļblico do Rio de Janeiro contra o filho do presidente. O Coaf, órg√£o de intelig√™ncia financeira, identificou uma série de movimenta√ß√Ķes at√≠picas, como saques e depósitos em espécie constantes e sequenciais na conta banc√°ria do PM.

O órg√£o federal, porém, só tinha como rastrear na ocasi√£o a origem das transfer√™ncias banc√°rias, que somavam cerca de R$ 140 mil entre os supostos participantes da rachadinha. N√£o se tinha informa√ß√£o sobre quem realizava os depósitos em espécie.

O peso dos repasses identificados por integrantes do suposto esquema na conta de Queiroz nos créditos totais naquele per√≠odo foi poss√≠vel de ser calculado a partir do cruzamento de informa√ß√Ķes do pedido de busca e apreens√£o feito pelo MP-RJ em dezembro e o relatório do Coaf, enviado à Promotoria em janeiro de 2018.

O levantamento aponta ainda que h√° R$ 57 mil de depósitos em espécie feitos em 2016 indicados pelo Coaf cuja a origem ainda n√£o foi identificada pelo MP-RJ. H√° entre eles casos de repasses com periodicidade e, assim como os demais, até uma semana após o pagamento de sal√°rios na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Essa "sobra" vai ao encontro das suspeitas de investigadores, de que outros ex-funcion√°rios do senador também participavam do esquema.

O MP-RJ identificou que os 13 ex-assessores repassaram R$ 2 milh√Ķes a Queiroz por meio de depósitos e transfer√™ncias entre 2007 e 2018. A suspeita de um esquema ainda maior se deve ao fato dos saques do PM no per√≠odo atingir R$ 2,9 milh√Ķes, R$ 900 mil a mais do identificado. H√° ainda a desconfian√ßa sobre repasse em m√£os com dinheiro vivo, sem registro em contas banc√°rias.

As informa√ß√Ķes do relatório do Coaf j√° apontavam ind√≠cios da "rachadinha", j√° que os depósitos mais volumosos ocorriam logo após as datas de pagamento de sal√°rios na Assembleia do Rio.

O juiz Fl√°vio Itabaiana autorizou em abril do ano passado a quebra de sigilo banc√°rio e fiscal de 78 ex-funcion√°rios da Assembleia do Rio. Os dados enviados pelos bancos ajudaram os investigadores a identificar os respons√°veis pelos depósitos.

Em alguns casos, as próprias institui√ß√Ķes financeiras indicaram o autor do depósito em espécie. Em outros, os promotores cruzaram as informa√ß√Ķes de data e valor do saque em conta de um assessor com os mesmos dados de depósitos na conta de Queiroz. Aqueles que apresentaram coincid√™ncia de informa√ß√Ķes foram vinculados à "rachadinha".

Um ter√ßo do total repassado a Queiroz em 2016 foi pela filha, Nathalia: R$ 101,3 mil. Depois vem a mulher de Queiroz, M√°rcia Aguiar (R$ 37,3 mil). Ambas, porém, faziam transfer√™ncias j√° identificadas pelo Coaf.

O cruzamento permitiu identificar o peso da contribuição de outras ex-assessores, como Luiza Paes (R$ 23 mil) e o policial civil Jorge Luiz Souza (R$ 28 mil).

Segundo a reportagem apurou, promotores desconsideraram casos em que a hora de saque e depósitos eram os mesmos, mas os valores, distintos. Esse critério, que visa ter mais precis√£o no v√≠nculo do repasse, pode ter deixado de fora pessoas que ficavam com parte dos saques para uso pessoal, devolvendo outra parte.

H√°, por exemplo, cinco depósitos feitos numa ag√™ncia de Vicente de Carvalho, zona norte da capital, que somam R$ 15 mil. Eles foram feitos, todos, após uma semana do pagamento de sal√°rios na Assembleia.

A localiza√ß√£o da ag√™ncia também foi usada pelos investigadores para atribuir depósitos nas contas de Queiroz. Foi o caso dos créditos em espécie feitos no Rio Comprido, numa rua próxima de onde Raimunda Veras Magalh√£es tinha um restaurante.

Ela é m√£e do ex-PM Adriano da Nóbrega, miliciano morto numa troca de tiros com a pol√≠cia na Bahia após ficar mais de um ano foragido. Além dela, também esteve empregada no gabinete de Fl√°vio a ex-mulher de Adriano, Danielle Mendon√ßa da Costa Nóbrega.

O senador, Queiroz e outros suspeitos estavam perto de serem denunciados quando o Tribunal de Justi√ßa decidiu que Fl√°vio tem direito a foro especial e que, por isso, a investiga√ß√£o deveria ser acompanhada pelo Órg√£o Especial, da segunda inst√Ęncia, e n√£o por um juiz da primeira.

Os desembargadores ainda vão decidir se devem ou não anular as provas obtidas com autorização de Itabaiana. O MP-RJ recorreu ao STF (Supremo Tribunal Federal) para reverter a decisão e decidiu esperar a análise dos ministros para apresentar a acusação.

Fonte: Da redação com Folhapress

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