13 de maio resistência ou comemoração? Professor do IFPB fala da importância dessa data para o Movimento Negro no Brasil.

A data tem um significado de resistência e luta dos descendentes de escravizados no Brasil. Temos que resistir e sermos vigilantes na luta contra o racismo e outras formas de discriminação.

Por Paulo Pereira em 13/05/2021 às 20:11:53

Foto: Ascom

O Portal Jornal do Sertão ciente da luta dos movimentos sociais de resistência negra traz uma série de entrevistas com personalidades do movimento negro da Paraíba. Nesse contexto aborda o dia 13 de maio como tema para ser lembrado como uma data de resistência e não de comemoração pela Lei Áurea, que em 13 de maio de 1888 decretou o fim da escravidão no Brasil.

A escravidão aconteceu por 300 anos no Brasil tornando-se assim o último país a abolir o sistema escravocrata nas Américas, mas isso não nos tornou um país de oportunidades e igualdades raciais para com os ex-escravos e seus descendentes.

O Portal Jornal do Sertão conversou com o professor João Edson Rufino, doutor em Literatura e Interculturalidade pela UEPB, atua na educação básica e tecnológica do IFPB campus Sousa, nas disciplinas língua portuguesa e brasileira e introdução literária, ele nos falou sobre a importância dessa data e dos acontecimentos que movem a luta e da resistência dos povos negros no Brasil.

PJS - Qual o significado dessa data para as causas sociais, principalmente para o movimento negro?

Prof. João Edson - O significado do dia 13 de maio para as causas sociais principalmente para o movimento negro tem que ser visto da seguinte forma: no sentido de refletir sobre tantas outras datas como 19 de abril o chamado Dia do índio e outras datas ditas oficiais que foram construídas e posta no calendário pelos grupos hegemônicos do poder e que tem o significado de revisão da história da historiografia.

A história que nos foi contado pelo discurso oficial não passou de intenções para mantê-los no poder. A historiografia escrita sabemos que muitas omissões e pressões externas para o Brasil efetivaram a tão sonhada abolição com a Lei Áurea, implantada em 13 de maio como representação da abolição, sem uma cidadania assegurada no dia 14 de maio de 1888. Com tudo o dia seguinte se tornou o pior dia para aqueles grupos que haviam sido libertos.

A grande pergunta que se fez foi a seguinte: onde estavam todos aqueles negros que um dia anterior tinham sido escravizados? Agora eram escravos sem lugar para trabalho, sem escola, sem terra para plantar, os seus serviços já não eram mais aceitos. A história geral omite todas essas lutas dos ex-escravizados e seus descendentes é preciso então rever novamente aqui no meu discurso o sentido de olhar, de enxergar essas datas com outros olhos que são criticamente aumentados pelas pesquisas que temos hoje pelos conhecimentos de outras histórias e historiografia que emergiram com o passar do tempo e que servem para desvendar discursos que foram os mais lidos e escamotear.

PJS - A data 13 de maio é sinônimo de resistência ou comemoração a causa dos nossos ancestrais?

Prof. João Edson - Trata se de um questionamento relevante de extrema importância saber se o 13 de maio é sinônimo de resistência ou comemoração a causa dos nossos ancestrais é preciso entender o seguinte todas as vezes que qualquer pessoa faz uma comemoração vale questionar quais são os motivos dessa celebração que nos forçam a mover alguém para celebrar. Para festejar o tai acontecimento vale a pena fazer um resgate rápido do significado da palavra, embora como memória signifique nada mais nada menos que a memória de um passado.

E vem a pergunta que também não quer calar junto de quem. Vamos lembrar de quê. Entendendo que a data 13 de maio não pode ser abolida porque ela se constitui um arquivo vivo, é um marco. Essa minha compreensão é um marco que depõe contra esse governo perplexo que vem construindo a história nacional péssima também de perversidade. Nesse ano de 2021 completa 133 anos de abolição sem cidadania porque essa data não pode ser jogado no lixo porque ela vai depor contra um sem número de ações que foram implementadas sistematicamente contra o grupo negro uma completa perversidade para com esse grupo de pessoas.

Isso serve para que possamos exigir um direito que a Constituição nos garante trabalho digno, escola, habitação, lazer, respeito, transporte, uma vida com dignidade para nós e para nossas famílias. Então nesse sentido de forma crítica e assertiva Dilma precisa sim ser lembrada. Sim, essa será a nossa forma de resistência até que possamos celebrar juntos um estado democrático de direito, do qual nós negros e negras ainda estejamos longe de alcançar e vencer essa luta.

PJS - Diante os absurdos do atual governo essa data tende a ser ignorada ou lembrada como um protesto a favor da luta?

Prof. Edson - Essa também é outra questão importante diante dos absurdos desse atual desgoverno que está aí. Essa data precisa ainda ser ignorada ou lembrada como protesto a favor da luta. Primeiramente acho que é preciso dizer que o governo que ai está em seu paroxismo apareceu o clima de todos os mal governos que tivemos no Brasil.

Ele já mostrou explicitamente ser racista e excludente. Então nesse sentido penso que o 13 de maio a data que precisa sim ser lembrada aponta o lado histórico da dor do sofrimento e exclusão que ela impôs a todos os descendentes de africanos no Brasil. E preciso falar das conquistas sim, é preciso falar dos avanços, mas sem perder de vista como esse período de centro de detenção tem sido deletério para o povo negro.

Então, nessa data precisa acentuar que tendo em vista que o processo de escravização privilegiou todos os grupos não negros. Essa luta que tem que ser abraçada por todos e todas. Essa luta deve encabeçar a pauta de uma agenda nacional. Nela por exemplo colocar a necessidade de cotas raciais em todos os setores para negros e negras, grupos que foram historicamente excluídos. Tudo isso na busca de um país justo, igualitário e verdadeiramente democrático.



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